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quarta-feira, 17 de maio de 2017

CAMINHOS DA POEIRA


No olhar desatento não percebi o trieiro
Tudo agora é tão rápido e tão aplainado
Quase não se chama a atenção neste chão pouco marcado
Poucos são os caminhos que ainda passam junto ao cajuzeiro.

Em um distante horizonte ficou as flores
Longe o suficiente para não atrapalhar o caminhar
Passos largos em direção ao que se tenta insistentemente evitar
No canteiro, quase no escanteio, ainda vejo alguns tratores.

Na beira da estrada as placas indicam uma direção
Percorro assim os passos de um desconhecido qualquer
Lá somente é permitido parar quando o olho vermelho requer
Ilusão de condução, de paixão, de ausência de tempo de empadão.

No olhar desatento eu percebi que o Ipê ainda insistia em florescer
Encontrei cores destoantes do betume tão escurecido
E na sombra do marginal pequizeiro esperei no chão o fruto caído
Desfrutei, então, da poeira junto ao caminho, até o anoitecer.

[por Vinicius Seabra | escrito na verão de 2017]

quarta-feira, 20 de julho de 2016

PROSOPAGNOSIA


Lembro-me que houve alguns que fizeram parte.
São rostos de gente que insistiram em continuar,
Semblantes de histórias inconclusas que não terminaram,
Sorrisos distantes que embelezam sonhos perdidos,
E, resumem-se em expressões de auto-retratos.

Não me lembro de vários que comigo coexistiram.
São faces sem identidade de destinos dispersos,
Vagas aparências de quem se foi sem ser percebido,
Baixas frontes que cansadas abandonaram a guarita,
E, resiste-se numa sombra desforme do passado.

Talvez, até lembre-se deles, que por aqui passaram.
São fisionomias manchadas por lágrimas que queria esquecer,
Vultos de meus fantasmas mais aterrorizantes e perversos,
Testas marcadas com representações da reprovação,
E, retifica-se em cada novo poente próximo.

Finjo não lembrar daqueles que não deveria ter ido.
São máscaras propositais que impermeabilizam o tempo,
Figura de quem sempre estará presente, ainda que no passado,
Pinturas de pessoas emblemáticas, sofisticadas, enganadas,
E, lembro-me (-se) fosse possível viver outra vez.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

sábado, 9 de abril de 2016

V.I.Z.I.N.H.O.S.


Será que há vida para além dos meus currais?
De longe se vê aqueles seres amórficos em suas cavernas.
Contudo, ainda não sei se são reais ou virtuais...
Pode ser tudo mera distração da minha mente solitária.

Será que eles são como os de cá?
Às vezes, tão somente às vezes, escuto suas vozes.
Há gritos de desespero, mas também há suaves canções.
Não sei quem são estes marcianos travestidos de gente.

Será em que língua eles se comunicam?
Nunca falei com nenhum destes ultraterrenos moradores.
Eventualmente encontro alguns na capsula de movimento,
Mas lá não é permitido diálogos, apenas olhares distantes.

Será qual o propósito deles entre nós?
Poderiam eles até serem exterminadores intergalácticos.
Quem sabe até podem ser piromaníacos inúteis...
É melhor me afastar deles, aceitar apenas orientação do cubo.

Será que eles têm nomes próprios?
Os conheço apenas pela sigla enigmática: V.I.Z.I.N.H.O.S.
Não sei bem o que significa tais letras,
mas não deve ser bom, muitas letras juntas é sinal de perigo.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

PERIFERIAS DA VIDA


Viver como se de lá fossemos chegar
Caminhando sob o sol de nossas intensas buscas
Vislumbrando um anti-pretérito sem relances
Co-existindo com nossas alucinações não realizáveis
Buscando a utopia mais realizável possível
Encaixotando esperanças com rótulos amigáveis
Para além de uma sombra desfigurada
Distante de tudo que nos aproxima
Nas margens do resignificar das cores
Lugar onde dispensam todo o lixo
Anfiteatro do espetáculo dos esquecidos
Anônima vivencia daqueles que se misturam
Perto do precipício do esquecimento
Tão perto do semelhante que se camuflam
Certos do centro que pro lado ficou
Reconstruindo novos muros para não verem
Massa asfáltica para reconectar o improvável
Sinais de simbolismos esquecidos
Luzes que piscam: verdes, amarelas e vermelhas
Indo, vindo, ficando, tropeçando, buzinando
Chegando tão longe dali mesmo
Circunscrevendo os algoritmos ininteligíveis
Andando tão longe de casa
Esquecendo de sua própria identidade
Ali, aqui, por aqui, por ali
Tudo tão distante
Longe de mim mesmo.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

quinta-feira, 25 de junho de 2015

DESERTO DE TIJOLOS


Flores de plástico, água tratada, pássaros entalhados
Tudo, de repente, virou artificial.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Onça pintada, pintada, e, micos leões dourados, desbotados
Sei que um dia tudo já teve mais cores.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Carne de açougue, alface do verdurão, manga da prateleira
Já tivemos dias mais perto da natureza.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Suco em pó, macarrão instantâneo, salgadinhos com aromas
Sei que um dia tudo já foi menos sofisticado.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Canções sem instrumentistas, tamborins desocupados
Até parece que desumanizaram nossos barulhos.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Virtualidade ao clique do delete, então, intentos apagados
Houve dias que tínhamos medo de errar.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Gente em pixels, terror do outro lado da tela, distantes
Teve dias em que as notícias nos afetavam.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

VERDE DISFARCE


Sustentabilidade de mídia
Ecologia de plenárias
Terras intocáveis.

Reaproveitar dos admiráveis
Descartes inúteis
Reciclagem fotográfica.

Solidariedade dos nobres
Erradicação de números
Preservação da ignorância.

Ser visto verde
Aparência do importar
Homílias de plateia.

[por Vinicius Seabra | escrito no verão de 2013]

domingo, 29 de junho de 2014

SUPERMERCADO


Na gôndola o amor
Na vitrine a esperança
No mostruário a bondade
No manequim a paz
No preço a ética
Na promoção a existência
No Marketing a amizade
Nas vendas a confiança
Na embalagem a felicidade
No prazo de validade a humildade
No caixa a tolerância
Na sacola a gentileza
No luminoso a paciência
Nos corredores a modéstia.

[por Vinicius Seabra | escrito no verão de 2013]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

NEM TUDO É NATURAL, APENAS NORMAL


A história ensina que as palavras ao longo do tempo vão perdendo sentidos, e agregando outros, fruto de valores extrínsecos que tendem a transformações etnológicas do momento – tudo bem natural. Então, como não poderia ser diferente, o contexto das vivências também interfere diretamente no significado das palavras pronunciadas e nos significados absorvidos, gerando reações adversas (incertas) num mundo relativista e com percepções individualistas.

A leitura de cenário do cotidiano da existência urbana, que está em constate mutação, brinda a presente época com um dualismo nada dialético entre o que é normal e o que é natural. Na busca por definições, significados, sentidos e percepções interlineares no diálogo humano, fazem-se necessário arrazoar entre o que é natural e o que se torna normal, na construção do ser humano contemporâneo.

Natural ou normal – duas possibilidades existenciais. No primeiro caminho, o natural, perpassa conceitos do tipo: espontâneo, ingênito, peculiar, verdadeiro e simples. Contrariamente, o atalho nomeado de normal tangencia algo do tipo: conforme à norma ou à regra comum, que serve de regra, de modelo, algo habitual e ordinário. Ou seja, é bem provável que se consiga ser normal, sem ser natural. Sendo o inverso igualmente verdadeiro e possível. Seria preferível, ao menos desejável, que se viva na atmosfera do natural, porém existir na redoma do normal é mais aceitável, pelo menos para os padrões atuais.

No presente processo de modernização, de gente citadina, o discurso é de aceitação da normalidade. Morte, destruição, terror, violência, destruição, corrupção, desrespeito – tudo ficou tão normal que nem mais gera reação nos espectadores da vida. Não é que perdemos a força por lutar, é que tais mazelas se tornaram normais. Não é que tenhamos desistido, é que fazemos parte dos horrores do cotidiano. E, não é que abafamos a esperança, é que viver se tornou uma atitude normal.

Distante das normalidades, como que numa resistência silenciosa, percebe-se aquilo que é natural. Amar, ajudar, socorrer, ombrear, olhar, sentir, brincar, sorrir, parar, questionar, respirar, desculpar – tudo tão inexplicavelmente natural que causa estranheza nas rotineiras vidas artificiais. Nascemos com o dom da naturalidade, porém somos adestrados para sermos normais. Neste processo despedagógico perde-se no percurso o que é importante e faz-se agarrar àquilo que é urgente. Dali sustenta nossas histórias que, enfim, se contenta em descolorir (desbotar) a naturalidade.

A bem da verdade, quase tudo o que fazemos hoje se encaixa no âmbito das normalidades. Isto significa ter que admitir que a sociedade atual apenas reproduz um padrão de conduta normal que vem passando por um processo paradoxal de metamorfose intelectual e sentimental – uma desconstrução inevitável do ridículo natural. Isto é normal na história, mas indiscriminadamente não é natural. Por esta razão, é normal não fazer o que é natural, pois naturalmente somos normais.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2007]