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quarta-feira, 17 de maio de 2017

CAMINHOS DA POEIRA


No olhar desatento não percebi o trieiro
Tudo agora é tão rápido e tão aplainado
Quase não se chama a atenção neste chão pouco marcado
Poucos são os caminhos que ainda passam junto ao cajuzeiro.

Em um distante horizonte ficou as flores
Longe o suficiente para não atrapalhar o caminhar
Passos largos em direção ao que se tenta insistentemente evitar
No canteiro, quase no escanteio, ainda vejo alguns tratores.

Na beira da estrada as placas indicam uma direção
Percorro assim os passos de um desconhecido qualquer
Lá somente é permitido parar quando o olho vermelho requer
Ilusão de condução, de paixão, de ausência de tempo de empadão.

No olhar desatento eu percebi que o Ipê ainda insistia em florescer
Encontrei cores destoantes do betume tão escurecido
E na sombra do marginal pequizeiro esperei no chão o fruto caído
Desfrutei, então, da poeira junto ao caminho, até o anoitecer.

[por Vinicius Seabra | escrito na verão de 2017]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

PERIFERIAS DA VIDA


Viver como se de lá fossemos chegar
Caminhando sob o sol de nossas intensas buscas
Vislumbrando um anti-pretérito sem relances
Co-existindo com nossas alucinações não realizáveis
Buscando a utopia mais realizável possível
Encaixotando esperanças com rótulos amigáveis
Para além de uma sombra desfigurada
Distante de tudo que nos aproxima
Nas margens do resignificar das cores
Lugar onde dispensam todo o lixo
Anfiteatro do espetáculo dos esquecidos
Anônima vivencia daqueles que se misturam
Perto do precipício do esquecimento
Tão perto do semelhante que se camuflam
Certos do centro que pro lado ficou
Reconstruindo novos muros para não verem
Massa asfáltica para reconectar o improvável
Sinais de simbolismos esquecidos
Luzes que piscam: verdes, amarelas e vermelhas
Indo, vindo, ficando, tropeçando, buzinando
Chegando tão longe dali mesmo
Circunscrevendo os algoritmos ininteligíveis
Andando tão longe de casa
Esquecendo de sua própria identidade
Ali, aqui, por aqui, por ali
Tudo tão distante
Longe de mim mesmo.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

sábado, 30 de janeiro de 2016

SILÊNCIO VISÍVEL


Eu te vejo,
Sei que você me viu,
Nós nos vemos.
Mas o silêncio disse tudo,
Você optou por ficar em off.

Fiquei aqui,
Escrevendo sozinho,
Para um ninguém virtual.
Você continua lá,
Lendo, vendo, mas em silêncio.

Escrever é ato solitário, eu sei.
Mas não precisa ser intencional,
Pois, eu sei, você viu.
Então porque você não responde?

O silêncio tem que ser usado.
Mas sua utilidade é dizer algo,
Silêncio é quando as palavras não cabem,
Não tem muito haver com omitir.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

terça-feira, 28 de julho de 2015

PRESOS


Prezamos por não sermos presos
Predigamos uma liberdade carcerária
Interpelamos nossos grilhões urbanos
Vãs visões de um imaginário contemporâneo.

Assistimos o choro de mães desmamadas
Contemplamos a tristeza de pais despaternalizados
Vislumbramos a angustia de jovens desvirtuados
Vã geração em grilhões de suas próprias ambições.

Cantamos as antigas melodias da infância
Brincamos com as memórias de tempos de rua
Saudamos as rizadas sem sentido que davam sentido a vida
Vã consciência a sufocar na expectativa das amarras do hoje.

Duvidamos da existência da bondade humana
Interrogamos a futilidade do que nos define
Afirmamos a convicção de nossas dúvidas
Vãos soluços de uma algemada temporariedade existencial.

Presos da liberdade de redes sociais
Gente de conexões capitalistas
Humanos de virtualidade fotográfica
Vã existência de perfil.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

quinta-feira, 25 de junho de 2015

DESERTO DE TIJOLOS


Flores de plástico, água tratada, pássaros entalhados
Tudo, de repente, virou artificial.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Onça pintada, pintada, e, micos leões dourados, desbotados
Sei que um dia tudo já teve mais cores.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Carne de açougue, alface do verdurão, manga da prateleira
Já tivemos dias mais perto da natureza.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Suco em pó, macarrão instantâneo, salgadinhos com aromas
Sei que um dia tudo já foi menos sofisticado.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Canções sem instrumentistas, tamborins desocupados
Até parece que desumanizaram nossos barulhos.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Virtualidade ao clique do delete, então, intentos apagados
Houve dias que tínhamos medo de errar.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Gente em pixels, terror do outro lado da tela, distantes
Teve dias em que as notícias nos afetavam.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

domingo, 24 de maio de 2015

THE FAST FOOD LIFE


Não há mais tempo. [esbraveja o vacilante]
Desde quando? [questiona o desatento]
Não conseguiremos chegar lá. [interpela o perdido]
“Tempo é dinheiro”. [argumenta o vendável]
Temos tempo de sobra! [disfarça o preguiçoso]
Sempre haverá tempo! [corrigi o interessado]
Quanto tempo você precisa? [gesticula o pernicioso]
Não temos tempo para isto... [irrita o orador]
Mas, não tinha tempo deste o início. [reitera o antenado]
Já gastamos muito tempo. [desafortuna o viajante]
Tempo investido! [retruca o palestrante]
Perdemos tempo investido? [contra-argumenta o sonhador]
Pegue o tempo de volta. [atravessa o desvairado]
Reitero: não há mais tempo... [continua o apavorado]
Se não há mais, o que estamos fazendo? [silencia o sábio]
Perdendo tempo, oras! [arrazoa o navegador]
Mas... não temos mais tempo. [grita o herói]
Então perdemos. [sussurra o tempo]

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A GENTE


A gente se torna agente
A gente se torna deficiente
A gente se torna irrelevante

A gente se torna aparente
A gente se torna insolvente
A gente se torna ausente

A gente se torna delirante
A gente se torna solvente
A gente se torna indigente

A gente se torna inconveniente
A gente se torna displicente
A gente se torna recipiente

A gente se torna inocente
A gente se torna negligente
A gente se torna indecente

A gente se torna gerente
A gente se torna atendente
A gente se torna servente

A gente se torna repetente
A gente se torna consciente
A gente se torna impaciente

A gente se torna bivalente
A gente se torna convalescente
A gente se torna permanente.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

sexta-feira, 27 de março de 2015

IDIOSSINCRASIA COPYRIGHT


Somos todos tão iguais,
Gente de sonhos semelhantes,
De tristezas produzidas em massa,
De alegrias mediáticas coletivas.

Não penso, logo existimos.
Não sou, então caminhamos.
Não sei, portanto nos definimos.
Não quero, por fim temos dúvidas.

Personalidade, pessoalidade, peculiaridade,
Individualidade, singularidade, originalidade,
Diferença, estranheza, certeza,
É preciso redescobrir o singular das sentenças.

O todo não representa as partes,
A soma das partes não coincide com o todo,
Mesmos sendo todos, em parte.
Parte-se do pressuposto da indivisibilidade do ser.

Nunca aceite congelar-se nos fotos-sensores,
Resista às tentações do selfie moderno,
Arrisque-se a descobrir o impossível não reproduzível,
Seja unicamente que és.

[por Vinicius Seabra | escrito no inverno de 2014]

sexta-feira, 6 de junho de 2014

DES


Desnecessária vida o é
Desmedida de amores o serás
Desentenda razão
Desafortunada paixão.

Descrente convicção de ser
Desproporcional querer ter
Destemida lógica
Despretensiosa rota.

Desmerecer aparência de
Desconstruir máscaras do
Descansar aprazerdes
Destes des.

[por Vinicius Seabra | escrito no verão de 2013]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

NEM TUDO É NATURAL, APENAS NORMAL


A história ensina que as palavras ao longo do tempo vão perdendo sentidos, e agregando outros, fruto de valores extrínsecos que tendem a transformações etnológicas do momento – tudo bem natural. Então, como não poderia ser diferente, o contexto das vivências também interfere diretamente no significado das palavras pronunciadas e nos significados absorvidos, gerando reações adversas (incertas) num mundo relativista e com percepções individualistas.

A leitura de cenário do cotidiano da existência urbana, que está em constate mutação, brinda a presente época com um dualismo nada dialético entre o que é normal e o que é natural. Na busca por definições, significados, sentidos e percepções interlineares no diálogo humano, fazem-se necessário arrazoar entre o que é natural e o que se torna normal, na construção do ser humano contemporâneo.

Natural ou normal – duas possibilidades existenciais. No primeiro caminho, o natural, perpassa conceitos do tipo: espontâneo, ingênito, peculiar, verdadeiro e simples. Contrariamente, o atalho nomeado de normal tangencia algo do tipo: conforme à norma ou à regra comum, que serve de regra, de modelo, algo habitual e ordinário. Ou seja, é bem provável que se consiga ser normal, sem ser natural. Sendo o inverso igualmente verdadeiro e possível. Seria preferível, ao menos desejável, que se viva na atmosfera do natural, porém existir na redoma do normal é mais aceitável, pelo menos para os padrões atuais.

No presente processo de modernização, de gente citadina, o discurso é de aceitação da normalidade. Morte, destruição, terror, violência, destruição, corrupção, desrespeito – tudo ficou tão normal que nem mais gera reação nos espectadores da vida. Não é que perdemos a força por lutar, é que tais mazelas se tornaram normais. Não é que tenhamos desistido, é que fazemos parte dos horrores do cotidiano. E, não é que abafamos a esperança, é que viver se tornou uma atitude normal.

Distante das normalidades, como que numa resistência silenciosa, percebe-se aquilo que é natural. Amar, ajudar, socorrer, ombrear, olhar, sentir, brincar, sorrir, parar, questionar, respirar, desculpar – tudo tão inexplicavelmente natural que causa estranheza nas rotineiras vidas artificiais. Nascemos com o dom da naturalidade, porém somos adestrados para sermos normais. Neste processo despedagógico perde-se no percurso o que é importante e faz-se agarrar àquilo que é urgente. Dali sustenta nossas histórias que, enfim, se contenta em descolorir (desbotar) a naturalidade.

A bem da verdade, quase tudo o que fazemos hoje se encaixa no âmbito das normalidades. Isto significa ter que admitir que a sociedade atual apenas reproduz um padrão de conduta normal que vem passando por um processo paradoxal de metamorfose intelectual e sentimental – uma desconstrução inevitável do ridículo natural. Isto é normal na história, mas indiscriminadamente não é natural. Por esta razão, é normal não fazer o que é natural, pois naturalmente somos normais.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2007]