Páginas

Mostrando postagens com marcador normal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador normal. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 25 de junho de 2015

DESERTO DE TIJOLOS


Flores de plástico, água tratada, pássaros entalhados
Tudo, de repente, virou artificial.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Onça pintada, pintada, e, micos leões dourados, desbotados
Sei que um dia tudo já teve mais cores.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Carne de açougue, alface do verdurão, manga da prateleira
Já tivemos dias mais perto da natureza.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Suco em pó, macarrão instantâneo, salgadinhos com aromas
Sei que um dia tudo já foi menos sofisticado.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Canções sem instrumentistas, tamborins desocupados
Até parece que desumanizaram nossos barulhos.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Virtualidade ao clique do delete, então, intentos apagados
Houve dias que tínhamos medo de errar.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

Gente em pixels, terror do outro lado da tela, distantes
Teve dias em que as notícias nos afetavam.
Não há mais vida, apenas tijolos emoldurados.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2015]

sexta-feira, 23 de maio de 2014

NEM TUDO É NATURAL, APENAS NORMAL


A história ensina que as palavras ao longo do tempo vão perdendo sentidos, e agregando outros, fruto de valores extrínsecos que tendem a transformações etnológicas do momento – tudo bem natural. Então, como não poderia ser diferente, o contexto das vivências também interfere diretamente no significado das palavras pronunciadas e nos significados absorvidos, gerando reações adversas (incertas) num mundo relativista e com percepções individualistas.

A leitura de cenário do cotidiano da existência urbana, que está em constate mutação, brinda a presente época com um dualismo nada dialético entre o que é normal e o que é natural. Na busca por definições, significados, sentidos e percepções interlineares no diálogo humano, fazem-se necessário arrazoar entre o que é natural e o que se torna normal, na construção do ser humano contemporâneo.

Natural ou normal – duas possibilidades existenciais. No primeiro caminho, o natural, perpassa conceitos do tipo: espontâneo, ingênito, peculiar, verdadeiro e simples. Contrariamente, o atalho nomeado de normal tangencia algo do tipo: conforme à norma ou à regra comum, que serve de regra, de modelo, algo habitual e ordinário. Ou seja, é bem provável que se consiga ser normal, sem ser natural. Sendo o inverso igualmente verdadeiro e possível. Seria preferível, ao menos desejável, que se viva na atmosfera do natural, porém existir na redoma do normal é mais aceitável, pelo menos para os padrões atuais.

No presente processo de modernização, de gente citadina, o discurso é de aceitação da normalidade. Morte, destruição, terror, violência, destruição, corrupção, desrespeito – tudo ficou tão normal que nem mais gera reação nos espectadores da vida. Não é que perdemos a força por lutar, é que tais mazelas se tornaram normais. Não é que tenhamos desistido, é que fazemos parte dos horrores do cotidiano. E, não é que abafamos a esperança, é que viver se tornou uma atitude normal.

Distante das normalidades, como que numa resistência silenciosa, percebe-se aquilo que é natural. Amar, ajudar, socorrer, ombrear, olhar, sentir, brincar, sorrir, parar, questionar, respirar, desculpar – tudo tão inexplicavelmente natural que causa estranheza nas rotineiras vidas artificiais. Nascemos com o dom da naturalidade, porém somos adestrados para sermos normais. Neste processo despedagógico perde-se no percurso o que é importante e faz-se agarrar àquilo que é urgente. Dali sustenta nossas histórias que, enfim, se contenta em descolorir (desbotar) a naturalidade.

A bem da verdade, quase tudo o que fazemos hoje se encaixa no âmbito das normalidades. Isto significa ter que admitir que a sociedade atual apenas reproduz um padrão de conduta normal que vem passando por um processo paradoxal de metamorfose intelectual e sentimental – uma desconstrução inevitável do ridículo natural. Isto é normal na história, mas indiscriminadamente não é natural. Por esta razão, é normal não fazer o que é natural, pois naturalmente somos normais.

[por Vinicius Seabra | escrito no outono de 2007]